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bem vi enquanto o corpo fino de V. se revirava sob o cobertor. alguns grunhidos, contorções saculejavam a manta poída de tempo. os tampos pretos dos pés permaneciam de fora do mesmo espaço do restante do corpo. cabeça, também, já de fora, sorria. não fossem os dois únicos pivôs sobreviventes, seria um autêntico sorriso de comercial de creme dental. largo. vermelho. limpou a boca com as costas da mão, de coloração idêntica a dos pés. vamos procurar algo pra comer? V. permaneceu calado. olhos baixos. na ponta do bigode um naco de algo que a mão não conseguira scanear. uma sombra entre o nariz e a boca. colocou de fora a língua e lambeu todo o contorno do bigode, englobando para dentro de sí o resquício de um corpo estranho. na boca, o mesmo sorriso frouxo de antes. sorriso doce, salgado, com recheio cremoso. o gosto do que se esvaiu no céu da boca de V. agora estava impresso para sempre nas minhas memórias. também não estou com fome, falei. Então caminhamos pela orla da praia e, assim, quando o sol se acomodava no centro de céu, os ponteiros do relógio e os cheiros se tornavam um só; nós sentamos de frente para o mar, barrigas estufadas, arrôtos de satisfação. fakes. V. ainda sorria.
