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Anda, Zé! Os músculos das pernas, no auge da vitalidade, alcançaram sem maiores dificuldades o caminhão que já ia pelo meio da subida. Abraçado aos sacos de lixo, os colocou num cantinho, longe do triturador. Ainda deu tempo de um último olhar em direção à janela fechada. Potes de iogurte natural, embalagens de creme dental (para dentes sensíveis), um pote de achocolatado, alguns sacos plásticos. No outro saco: uma garrafa de espumante, uma garrafa de azeite extra virgem, lâmpadas fluorescentes, cacos de uma taça. Aos sábados, duas latinhas de cerveja preta, caroços de azeitonas, também, pretas, nacos de queijo e alguns pincéis cujas pontas formavam uma cor diferente graças às várias outras que se amontoavam em sua extremidade. Na boca dos sacos, digitais azuis. Num dia de atrasos que não sabia de quem, se dela ou deles, viu o reflexo preto de um cabelo passar tímido pela janela. Ao rosto dos sonhos agora faltava colar o verdadeiro. Nunca colocava os sacos dela para a reciclagem. Em casa, banho tomado, acendia um cigarro, se sentava no meio da sala e separava o conteúdo dos sacos como pistas recolhidas numa cena de crime. Do frasco vazio, de perfume, memorizou o cheiro que se espalhou pela sala. Nos dias de folga, roupa nova, em pé no bar em frente ao prédio da dona do lixo, pedia no balcão a mesma cerveja preta que ela bebia e investigava o ar como quem aspira flores do campo.
