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<fim>

Lavava os pratos na pia. Pescava com a mão os copos que boiavam na superfície gordurenta da água, enquanto murmurava uma música que lhe impregnava os tímpanos desde o dia anterior. Ele lhe dava um beijo no lado esquerdo do rosto. Se sentava à mesa e engolia juntamente com o café da manhã, as piores notícias do dia, que saltavam das páginas e se alojam certeiras em seu cérebro. Precisamos pagar a hipoteca da casa. Nina está com febre, não vai à escola hoje. Acho que estou grávida. Ele se levantava e colava outro beijo sobre a camada de saliva, no mesmo lado esquerdo do rosto dela, agora meio adocicado pelo café. Os chinelos o arrastavam até o quarto. Procurava num desnovelo a violência de uma palavra começante. Infértil, quando lançada a esmo sob a promiscuidade abençoada de um lar. Uma boa mulher. Filhos jovens e ainda por vir. Nada é mais leve e fugaz do que um corpo em queda livre.

<começo/>