23/04/2009

calor. o metro quadrado a que cada um tinha direito incitava a promiscuidade abalizada mediante o pagamento de um valor simbólico. ao sabor da velocidade que o condutor imprimia ao veículo, eu, sentada, me encontrava, não sem algum constrangimento, entre um jovem pau na iminência de um brusco despertar e um homem cujos olhos trazia fechados. como cada um se afasta das coisas como pode, embora não fechasse os meus procurava num jogo doente de concentração entender que o que nietzsche vociferava num espaço branco de 18×11 era na verdade o que minha mãe dizia ser pecado quando, seduzidos por segan, indagávamos, eu e meus irmãos, onde estiveram os dinossauros que não abocanharam os gostosos adão e eva e a tal maçã. ana, não! não fossem os headphones no volume máximo, o rapaz de pé ao meu lado ganharia ainda mais um motivo para se considerar meu muito íntimo. meu nome. na boca de um sonho ou de um pesadelo ou de uma lembrança. como fixasse meu olhar nas páginas daquele que se intitulava o anti-cristo, o homem se mexeu, ronronou mais alguma coisa que não tive coragem de mover meus pescoço para ouvir como se deve, e acordou. se sentiu protegido. a combustão humana em que todos estávamos imersos ocupava uma importância primária nesse momento. ana talvez fosse loira e tivesse desistido do casamento ja às vésperas. se apaixonou pelo espírito aventureiro de um outro que iria de moto até a américa a fim de figurar nas páginas do livro dos recordes. o noivo trocado chafurdou na própria lama e não disse palavra, apenas chorou diante de ana. Um pranto muido, silencioso. puxou a corda. o ônibus parou. desceu. na calçada ainda pude ver que ana não era loira e que o esperava com um jeito frio. um beijo morno. talvez ele tenha tido uma epifania ou o que os religiosos costumam chamar de revelação.

2 Responses to “”

  1. Daniel Says:

    ei queridona. gostei muito. achei diferente dos outros, mas confesso que nao sei pq. talvez pq ele tenha uma tensao sexual que me agrada. mas nao sei. so sei que é bom. beijao

    • lenise Says:

      não sei, dani o que difere esse dos outros. o alicerce das “pequenas” tragédias eh o mesmo. talvez eu tenha colocado a história mais na boca da personagem secundária. não sei, pensarei a respeito. tó aguardando mais textos seus, tmb tá na entresafra? rs.
      beijoca.

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