13/07/2009

passava os dias na sacada enquanto a tv vocifereva para ninguém, e a mãe, aos berros, chamava para o jantar. sorvia com cinco colheradas o cozido preparado com displicência e acompanhava com a curiosidade de quem espera pelo folhetim diário o drama da figura que exibia meia perna na balaustrada e exterminava os pelos com cera quente enquanto sonhava com uma depilação que fosse definitiva. “A vizinha” trazia as unhas vermelhas, a boca desenhada e polvilhava, de quando em quando, as partes, com uma quantidade satisfatória de talco líquido, um paliativo a mais para o recorrente problema dos pelos. creme de barbear. enxaguante bucal. nos fins de semana sorria de volta e deixava-se ver com a sombra de uma barba por fazer. cresci com a janela aberta, enquanto na vizinha os pelos embranqueceram, o dentes cairam e a terra lhe foi leve, quando na lápide, na ausência de qualquer parente vivo, pedi que gravassem: Aqui jaz Julieta Dietrich. “E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!”

2 Responses to “”

  1. andré paiva Says:

    Curti o texto, é repleto de imagens… gostaria de ler mais… quem sabe na piauí

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