11/05/2010

para maguerite duras

Ainda na soleira da porta vi a dimensão das costas encobrindo a mesa. Olhos atentos e dedos já saudosos pelo toque, embora ainda refugiados nos bolsos da calça. Um breve instante mais e meus pés se recusariam a levar-me a qualquer lugar que eu desejasse. Permaneci ali na iminência de um acontecimento maior ou igual à vontade de meus membros inferiores. Dois segundos mais e uma escassez de ar em meu cérebro. Aproveitei a decisão precipitada do vento, em empurrar a porta, e entrei antes que ela batesse. Nem o peso do carvalho, açoitando as dobradiças poderia tirá-lo do transe em que estava imerso. Usava as mãos, os dedos, e enfim todo o corpo; rascunhava o papel com ânsia. Perscrutava-lhe cada espaço em busca do preenchimento total de sua incômoda alvura.

Caminhei pelo cômodo indiferente a seu olhar. Passei por entre paredes, fiz sombra sob as cortinas e finalmente presença sob o corpo teso e inerte acomodado na cadeira.  Sem levantar os olhos do papel quis saber o porque de meu prematuro retorno. Eu respondi com perguntas: Por quê a pouca luz? E as cores fortes dos quadros nas paredes? Ele permaneceu com os olhos descolados do rosto. Espatifei novamente o silêncio em pequenos cacos. Gosto dessas cores fortes e da sensação de medo que elas me provocam. Pareceu não me ouvir em seu embate com a letra. A cada nova tentativa de preenchimento, o papel à sua frente retornava a seu insosso estado de alvura. Com a cabeça entre as mãos, a figura mal delimitada, um tanto cadeira, um tanto mesa, parecia querer desaparecer em si. Então abandonou bruscamente a folha de papel.

Toquei-a, aproximei-a dos meus ouvidos. As palavras sempre estiveram aqui, por isso voltei. Pude ver em seus olhos o reverbero da resposta ainda cheirando a mofo. Olhou a mancha já engolindo a branquidez do papel e aos poucos presenciou a revelação da escrita do que não se pode escrever, porque não se sabe como. Ergueu o olhar, levantou-se da cadeira em direção à porta, fechou-a por dentro. Voltou os olhos em minha direção. Agora, não haverá mais ventos que ampliem distâncias e apaguem os rastros de casa, nem mais papeis ao chão. Ofereceu-me uma cadeira, sentei-me à seu lado.

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