as vezes sorria enquanto trazia ao palato a mesma frase que segundos antes esteve colada à boca da personagem que, embora considerasse plana, era inegável as boas tiradas com que encarava um sem número de situações cotidianas. não era difícil deixar-se chafurdar em páginas de papel bíblia durante todo o dia, visto que o ócio para um homem que contava com 3/4 de idade não é algo a que se reinvindique; ele coexiste com a poeira nos cantos da casa, com o odor de talco que se desprega do corpo, com o estalar de ossos nos dias de inverno. mas retornemos à direção dos olhos do homem com os óculos acomodados no nariz do modo mais clichê que se poderia usar óculos. faz dias que está assim, lendo e relendo a mesma página do romance, e digo romance porque vejo um cinismo nos olhos que apenas os romances podem proporcionar. na capa já não é possível identificar o nome, nem do livro muito menos do autor. não me arrisco a dizer que isso seja por consequência do intenso manuseio e das horas que o volume passa aberto em suas mãos. tenho medo de que morra antes de virar a última página. antes que eu concluisse o pensamento, ele se levantou fechou o livro e disse: leva-se tempo para construir o livro ideal e é legítimo que se demore também para lê-lo. colocou o único livro que ocupava a estante que, sem livros, talvez não conservasse o mesmo nome, quiça, sua utilidade; onde podia-se ler, na lombada, sem grande dificuldade: “Madame Bovary – Gustave Flaubert”.