19/08/2010

intertextuais

O homem vinha todos os dias. Forçava a entrada, escolhia uma cadeira, sentava-se e sorria. Permanecia o tempo que a incapacidade ou a virtude do relógio, aceitara sem constrangimentos. Enquanto os copos se estilhaçavam nas paredes, o homem permanecia. E mesmo enquanto a obra de alvenaria se projetava para além da prancheta, e as portas ganharam cadeados e trancas, ele continuava vindo e se sentando na mesma cadeira cuja parede já sabia seu espaldar desde a antiguidade. O mesmo sorriso basbaque do primeiro dia. Os armários estão vazios, cacos atravessam a fina pele da planta dos pés, e as cordas vocais, que ainda permanecem vibrando, parecem agora no limite. Mas ainda assim permanecem, os dois, encurralados entre a espera e a dúvida.

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